A terapia da alegria espiritual
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A terapia da alegria espiritual

Marcelo Barros

Neste início de milênio, a humanidade parece mais frágil psicologicamente do que antes. Além da destruição ecológica que provoca novas doenças e riscos, nossa sociedade é responsável por muitas tensões. A humanidade está mais e mais carente de paz e alegria. Uma boa espiritualidade pode devolver a capacidade de alegria que Deus pôs no coração de cada ser humano.

Em vários lugares do mundo, descobrem-se terapias do riso e da alegria. A literatura e o cinema imortalizaram Patch Adams e o seu método de cura através da palhaçada, hoje, aplicado em hospitais infantis e adaptado até para doentes terminais. No caminho espiritual, é preciso reconquistar o lugar da alegria.

É compreensível que o povo sofrido associe religião com sacrifício e dor, como caminho para enfrentar os martírios da vida. No Cristo cheio de chagas e em Maria dolorosa, parece simbolizada a crucifixão cotidiana de tantas vítimas da injustiça desta sociedade. Entretanto, a espiritualidade é exercício da capacidade de amar. A fé não pode ser conivente com a tristeza. São Francisco ensinava aos discípulos o caminho da "alegria perfeita" que consiste no despojamento de si mesmo em comunhão com Jesus.

Nenhuma tradição religiosa pode aceitar que se sofra nesta vida para receber o céu na outra. Jesus garante: "Eu vim para que todos tenham vida e vida abundante". Na oração do Pai Nosso, os cristãos pedem a Deus, não que os leve ao reino do céu mas que, aqui na terra: "Venha o teu Reino".

A Quaresma prepara a Semana Santa e a celebração da Paixão de Cristo. Parece tempo triste e pesado. É época em que não se fazem casamentos e até o Candomblé cala seus tambores. A vida é feita de alegrias e tristezas. Sem uma, não se alcança a outra. Mas, a Quaresma deve ser um ensaio para uma espiritualidade pascal, festa de liberdade da vida que vence a morte.

O trabalho interior para superar lacunas e progredir espiritualmente é fruto da graça de Deus. Deve ser vivido com leveza e alegria.

Muitos místicos pediram a Deus e obtiveram o dom das lágrimas. De fato, é uma graça reconhecer a própria culpa e ser capaz de chorar por seus pecados. Entretanto, Deus fica mais feliz se alguém lhe pedir o dom da alegria, expressa na leveza do olhar, na pureza do riso e no encanto da vida. A própria confissão de pecados se baseia na confiança de que o amor de Deus é maior e mais importante do que nossas imperfeições.

A tradição judaica conta que um dia, um velho procurou um rabino e pediu uma penitência para os seus pecados. O rabino respondeu:

- Anote todos os seus pecados em um papel e traga para mim.

Quando o homem trouxe a lista, o rabino Ber limitou-se a dar uma olhada e concluiu: - Pode voltar para casa que está tudo bem.

O homem saiu e o rabino começou a ler o que estava escrito na folha. A cada linha, caía na gargalhada.

Um outro viu aquilo e ficou escandalizado. Como o pecado podia provocar risos do santo rabino. Contou isso a um santo ancião, que lhe respondeu: - Ninguém peca a não ser que entre nele o espírito da doideira. A única reação que o sábio pode ter a este tipo de doidice é rir. Rindo, não deixa que a ação do pecado seja trágica. Faz descer sobre o mundo o sopro da caridade, desfaz a severidade e o que parecia grave perde importância.

Como cantava Chico: "Deus é um cara gozador que adora brincadeira. Pra me botar no mundo, tinha o mundo inteiro, mas achou muito engraçado me deixar cabreiro. Na barriga da miséria, nasci brasileiro..."

Marcelo Barros, é monge beneditino e escritor.
www.mosteirodapaz.org.br/