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Credo social para o novo milênio[1]

 

Frei Carlos Josaphat

 

Na aurora deste novo milênio, a nossa fé na Comunhão trinitária e em nossa comunhão com Deus e com toda a humanidade tem que se afirmar de maneira bem viva e bem rente à realidade. É a hora da fidelidade criativa ao que recebemos de Cristo, pelos Santos Padres e doutores, pelos místicos e pelas místicas,  que vigiaram através dos séculos, dando alma a estes dois mil anos que queremos comemorar na gratidão e na responsabilidade.

 

Nada de meias palavras. O novo milênio só tem  sentido como comemoração da vinda e do dom de Deus, nosso Pai e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual  por seu Filho entrou em nossa carne, em nossa vida e em nossa história, comunicando-nos o seu Espírito. Mais ainda. Não seria oportuno  tentar desdobrar essa certeza  em uns dizeres mais nossos, mais de hoje, sem esquivar  o risco de proferir uma palavra provisória relembrando a Palavra que não passará jamais?  

 

Tal é o propósito e o sentido deste Credo de caráter primordialmente social, pois ele visa destacar o caráter realista da solidariedade que decorre de nossa união com a Comunhão trinitária. Nessa profissão, sintetizamos a fé que anima  nosso povo,  suas comunidades,  seus líderes. Hoje como ontem e mesmo mais do que ontem, nossa convicção proclama o gosto de viver e a alegria de lutar na comunhão de Deus que atiça nossa solidariedade. 

 

            Cremos

                        na vocação divina do ser humano à comunhão eterna no Amor e, igualmente, na sua missão histórica de edificar, sobre a terra, civilizações solidárias e justas.

            Cremos

                        que Deus entrou como força renovadora em nossa história e em nossa vida, pois o Pai a nós se deu e tudo nos deu  pelo seu Filho, Luz de Luz , e no Espírito Santo, Amor que vem do Amor e ao Amor nos conduz.

            Cremos

                        no amor fraterno e realista, que detesta a iniqüidade, combate a injustiça, rejeita os privilégios. Nem cede jamais à superstição, que vê na história o predomínio fatal dos egoísmos, a inexorável concorrência de interesses ou a miraculosa salvação oferecida pela idolatria do mercado ou pelo simples jogo da própria economia.

           

 

 

Cremos

                        Na eminente dignidade da pessoa humana, “feita à imagem e semelhança de Deus,“ Comunhão de bondade e de amor, e no primado absoluto do bem comum, que se há de realizar pela promoção de todos os direitos para todos. 

            Cremos

                        na igualdade fundamental do homem e da mulher, das nações e dos povos, condenando qualquer exploração do homem pelo homem e esconjurando todos os modelos violentos ou disfarçados de colonização política, econômica e cultural.

            Cremos

                        que os bens terrenos são destinados por Deus para prover à necessidade de todas as criaturas humanas; e que as formas de propriedade, tão variadas através dos tempos e das regiões, são justas e legítimas, tão somente na medida que permitem a valorização da pessoa, o desabrochar da família, o desenvolvimento do país e a solidariedade entre os povos.

            Cremos

                        na primazia absoluta dos valores espirituais, sem desconhecer, no entanto, certa prioridade dos fatores econômicos, no plano social, uma vez que as sublimes prerrogativas da liberdade, igualdade e fraternidade serão apenas palavras mortas, se não se apoiarem em uma ordem econômico-social, realmente eqüitativa para todos.

            Cremos

                        que o trabalho é a fonte primeira da riqueza e da prosperidade, e que o capital, sendo frutificação do trabalho, deve, mediante este, colocar-se a serviço do desenvolvimento econômico e cultural.

            Cremos

                        na democracia representativa, como forma de governo mais consentânea com os direitos humanos e as exigências do Evangelho.

            Cremos

                        por outro lado, que a democracia não passará de uma farsa, se seu exercício estiver nas mãos de um só partido, de uma só casta, ou sob o predomínio de grupos econômicos. Sem a difusão da propriedade em sua forma pessoal, familiar ou em comunidades de trabalho, não existe povo capaz de independência e de opção, mas apenas massa volúvel, facilmente escravizada pelos ditadores individuais ou coletivos.

            Cremos

                        que o povo é soberano não só na designação, mas ainda na orientação permanente dos governantes; pois a autoridade vem de Deus certamente, porém através da cooperação do ser humano, imagem divina, inteligente e livre.

            Cremos

                        que não há democracia, sem a formação e a informação honesta da opinião pública, esclarecendo as consciências sobre os problemas humanos fundamentais. E reconhecemos na dominação dos grupos econômicos sobre a mídia, a mais perniciosa das ditaduras. Sem a democratização econômica, particularmente dos meios de difusão, não é possível verdadeira democracia política.

 

 

            Cremos

                        que a democracia política e social tem como base a procura do bem comum, como inspiração a constante promoção dos homens e das mulheres, e como resultado a ascensão de todas as camadas sociais aos benefícios do conforto e da cultura.

            Cremos

                        que todos esses valores democráticos recebem especial confirmação e consagração, nos princípios do cristianismo; têm, no entanto, seu fundamento primeiro na própria dignidade do ser humano, criatura espiritual e privilegiada de Deus.

            Cremos

                        que a paz é fruto da justiça, e que a justiça brota da caridade, e na caridade encontra toda a sua perfeição.

            Cremos

                        na Trindade Santíssima, Pai, Filho e Espírito Santo, de quem a Igreja é o sacramento, histórico e comunitário, consagrada a Deus e por Deus para a reconciliação universal da humanidade.

            Cremos

                        Que o Espírito age na história e em nossos corações levando-nos pelo Cristo e com o Cristo à intimidade com o Pai e à fraternidade humana universal, estimando, respeitando e abraçando todos os homens e todas as mulheres, todos os povos, todas as raças, todas as culturas, na marcha sofrida e maravilhosa da humanidade para a comunhão da vida e  a partilha da felicidade. Pois o ser humano vivo e feliz é a plena manifestação do Senhor da vida, da história e da eternidade.

 

Crendo e professando hoje esta fé, unimo-nos no amor e na luta, como povo chamado à comunhão divina e empenhado na realização da solidariedade humana, agradecendo,  consagrando, abençoando o novo milênio em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

 


Frei CARLOS JOSAPHAT, O.P., teólogo dominicano, professor emérito da Universidade de Friburgo – Suíça, escritor, autor de “Moral, Amor & Humor – Igreja, sexo e sistema na roda viva da discussão”, Editora Record – Nova Era, Rio de Janeiro, 1997, Santas Doutoras, Espiritualidade  e a Emancipação da Mulher”, Edições Paulinas, São Paulo, 1999, entre outros. Atualmente leciona na Escola Dominicana de Teologia em São Paulo .


[1]              Uma primeira versão desse texto, sob o título de Credo Social, foi por mim elaborada em 1963, sendo proclamada por líderes e movimentos populares que pretendiam lutar por “reformas de base” e se opor ao golpe militar que se preparava. O Credo social foi publicado no jornal BRASIL URGENTE em 1963. Reafirmamos essa “profissão de fé”, com ela concluindo um livro lançado no limiar do novo milênio: “2000. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Ed. Loyola, 2000.

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