Make your own free website on Tripod.com
Marcelo Barros

Caminhos que abrem o futuro.

No Brasil, as festas juninas se encerram, enquanto na Bolívia, Peru e Equador, os índios comemoram o ano novo andino. Os festejos juninos têm origem em festas pré-cristãs em honra à deusa romana Juno, protetora do lar e do fogo. Assim surgiu o costume das fogueiras e foram se incorporando, com os séculos, a dança da quadrilha e o casamento caipira. O cristianismo deu a estas festas um conteúdo cristão: a memória do nascimento de João Batista, precursor e testemunha do Cristo. O povo festeja o nascimento de São João, como profetiza o Evangelho: "Por seu nascimento, muitos se alegrarão" (Lc 1, 14). Nos Andes, os ritos indígenas ao sol lembram antigos cultos a Inti, deus-sol que fecunda a terra. Enquanto uns festejam o sol e outros a lua, estudiosos se questionam sobre o futuro da humanidade e do planeta Terra.

Há pelo menos cinco séculos, o desenvolvimento técnico e sócio-econômico que o Ocidente segue baseia-se na destruição da natureza e na capacidade dos seres humanos explorarem os seus semelhantes. Calcula-se que, só no século XX, morreram 99 milhões de pessoas em 237 guerras. E quantos milhões foram assassinados pelas armas da fome? Nos últimos 50 anos, o mundo perdeu um terço de sua cobertura florestal. As empresas multinacionais detêm o direito de abater árvores em 12 milhões de hectares da floresta amazônica. Um quinto dos seres humanos não tem acesso à água potável.

Pesquisadores e políticos falam em "desenvolvimento sustentável", cuidado estratégico para conciliar lucro das empresas e preservação ambiental. Não muda o conceito de desenvolvimento e produção. Procura convencer a sociedade que é possível continuar sua corrida ao lucro desenfreado sem destruir florestas e rios. As áreas preservadas se tornarão hotéis-fazenda com cachoeiras e paisagens telúricas, adequadas ao turismo ecológico. Algumas empresas se dizem "exemplo de proteção ao meio-ambiente" porque, ao invés de destruírem tudo, reservam 50% da natureza reciclada para publicidade ecológica.

É possível este tipo de desenvolvimento ser verdadeiramente sustentável? O sistema capitalista é estruturalmente depredador dos seres humanos e do universo. Não por acidente ou descuido fortuito, mas por sua própria natureza, visto que sua meta suprema é o lucro. A vida humana e as condições ambientais importam apenas à medida que permitam o maior lucro das empresas. A única esperança de futuro para a humanidade e para o Planeta Terra é deter a voracidade do atual sistema econômico e inventar um modo de organizar o mundo mais justo e solidário.

Há caminhos que abrem este novo futuro. Nos assentamentos de lavradores, antigas técnicas indígenas substituem os defensivos agrícolas. Em todo o país, a Agricultura Ecológica conquista mais adeptos. Entretanto, medidas apenas técnicas não serão capazes de gerar uma situação nova e abrir um caminho de futuro de paz para a humanidade. Conforme o Dalai Lama, só uma espiritualidade ecumênica e ecológica dará ao ser humano a possibilidade de caminhar para uma relação nova consigo mesmo, com os seus semelhantes, com todo o ser vivo e com a Terra como casa comum de nós todos.

No encontro de oração pela Paz que, junto com lideres de várias religiões, o papa fez em Assis (24 de janeiro de 2002), o velho Avelékété, grande sacerdote do Vodu africano, declarou: "Quando não há paz entre os seres humanos, as estações são misturadas e a terra não produz mais as sementes para alimentar a humanidade. Quando as pessoas trabalham pela paz, a terra lhes sorri e volta a ser fecunda".
--------------------------------------------------------------------------------
SOBRE O AUTOR: Marcelo Barros é teólogo, biblista. escritor e romancista. É prior do Mosteiro da Anunciação do Senhor

NOVO TEXTO: A terapia da alegria espiritual

VOLTAR